Tuesday, 14 September 2010

4o Concurso de Blogueiras 2010 - Resultados da primeira etapa

Estou super feliz com o resultado da primeira etapa do concurso de blogueiras organizado pelo blog "Escreva Lola Escreva". Meu humilde (e primeiro) post teve o segundo maior número de votos, e estou literalmente me sentindo over the moon. Faz tempo que estava "flertando" com a idéia de ter um blog, mas nunca tinha a confiança suficiente de fazê-lo. Achava que escrever não era pra mim, e que ninguém teria interesse em ouvir qualquer coisa que tivesse a dizer. Mas o blog da Lola é tão maravilhoso e inspirador que decidi perder o medo e tentar... E agora estou super animada para continuar blogando e conhecendo amigos novos e interessantes através do meu blog. Muitíssimo obrigada pelos votos e pelos comentários carinhosos de vocês. Como Lola disse, o resultado final não é o mais importante, mas sim a possibilidade de divulgar blogs de mulheres pelo mundo afora. O que vale é o incentivo de continuar blogando...E esse podem ter certeza que tenho de sobra agora. Agora vamos lá no blog da Lola pra votar para as outras etapas...Os posts estão demais...Beijos, Fernanda



Friday, 10 September 2010

Livro do Mês: "Immigrants, your country needs them" (Imigrantes, o seu país precisa deles)

Começo aqui uma “projeto” que tentarei executar com bastante disciplina. Todo mês revisarei um livro interessante que li e compartilharei com vocês minhas opiniões sobre ele. Antes de mais nada quero dizer que não tenho formação em Letras ou Literatura, e minha "autoridade" de criticar livros é totalmente não oficial. Como digo em meu perfil, este blog é simplesmente um "grito", onde discuto sobre coisas que considero legais e importantes. E livros certamente fazem parte da lista...

Essa semana comentarei sobre um livro maravilhoso que li recentemente, entitulado: Immigrants, your country needs them (tradução: Imigrantes, o seu país precisa deles), escrito por Philippe Legrain. Mencionei Legrain no me post anterior sobre patriotismo, mas hoje quero dedicar mais do que umas meras linhas a ele, um economista, jornalista e escritor freelance que passei a admirar muito nos últimos meses. Para quem quiser saber mais sobre ele e seus livros, indico o seu blog (mencionado aí embaixo na minha lista de favoritos). Vale a pena conferir (principalmente os vídeos e entrevistas).

A temática de imigração é importantíssima para mim, não somente pelo fato de eu ser uma imigrante faz quase 15 anos, mas principalmente porque o assunto é sempre permeado de controvérsia, racismo, politicagem e injustiça. E isso é extremamente irritante na minha opinião. Ontem mesmo estava no aeroporto de Heathrow esperando numa fila colossal para passar pela imigração (nem sendo cidadã permanente aqui e pagando 40% de imposto eles facilitam a vida da gente), quando observei uma placa do UK Border Agency (a Policia Federal daqui) bradando em altas letras: UK Border Agency - protecting Britain's border and controlling Immigration (tradução: Controle de fronteiras do Reino Unido – protegendo as fronteiras e controlando a imigração). Esta última parte da frase (controlling immigration) havia sido claramente adicionada depois, pois estava em letras diferentes...Talvez por causa das eleições que aconteceram aqui faz uns meses, eu pensei...Toda vez que a população se sente ameaçada no meio de uma crise econômica, os políticos a tranquilizam descendo o pau nos imigrantes. A fila onde esperava estava hiperlotada, cheia de cidadãos não europeus, a maioria africanos, cujos vôos chegaram por volta do mesmo horário. Obviamente, imigrante tem que ser tratado como lixo, então não importa que os bebês das mães africanas estivessem chorando de fome e os idosos morrendo de cansaço depois de horas e horas de vôo. Haviam 3 oficiais checando os passaportes de quase 500 pessoas, e depois de quase 2 horas na fila (juro!!!), eu sai fuzilando de raiva e pensando: pois é, na hora de invadir e colonizar o país deles tudo bem, mas na hora que eles vem no de vocês, aí precisa avacalhar...

Anyway, revoltas à parte, vamos ao livro. Legrain manda ver com uma frase que adoro: O argumento para imigração é econômico e não político!!!Pow, Soc, Tum, Pah!!! Toma na cara, seus xenófobos. Imigração faz sentido economicamente sim e ele prova isso. As maiores economias dos últimos tempo progrediram imensamente por causa de imigração. Veja os Estados Unidos por exemplo, com o Silicon Valley na Califórnia sendo um centro de inovação e geração de empregos. Os indianos, taiwaneses, etc são vitais para o sucesso do Valley, ja que estabelecem ligação com seus países de origem (com as vantagens de saberem a língua, os costumes e as práticas de negócios regionais) aumentando assim o comércio, criação de novas empresas e consequentemente a geração de empregos pros dois lados. Ate países mega xenófobos como Austrália não tem como negar os efeitos positivos da imigração em seu crescimento econômico. Imigração gera empregos e ponto final. Afinal de contas, cada imigrante que executa um trabalho que os nativos não querem fazer está possibilitando que esse mesmo nativo entre para o mercado de trabalho mais especializado, gerando assim riquezas para o seu país.

Democracias sociais como a Suécia e o Canadá estão aí para provar que imigrantes não oneram o sistema  social como muitos gostam de dizer. Afinal de contas, nem se os imigrantes estivessem a fim de abusar o sistema (o que piamente acredito que não estão), as leis de imigração não o permitem. Então essa coisa de que imigrante só quer viver de benefícios é pura balela, já que os legalizados não têm direito a um monte de coisas que os nativos têm (tipo seguro desemprego, ajuda de moradia, etc) nos primeiros anos de existência no país. E os ilegais então nem podem aparecer no radar para ir a um simples hospital, quanto mais pedir benefícios ao governo. Quanto aos asilados políticos, os argumentos também são carregados de preconceito, mas o que ninguém divulga é que o número de gente pedindo asilo é muito menor do que se acredita, e continua declinando em vários países. O que as pessoas confundem é que os imigrantes que elas juram ser “abusadores do sistemas”, são na verdade segunda, terceira geração nascidos no mesmo país que elas, portanto cidadãos tão legítimos quanto os que os criticam. Eles, por causa de sua cor de pele “diferente” se sobressaem, mas o que todo mundo esquece é que nativos brancos também pedem benefícios. Se as economias estão estagnadas, e as pessoas não tem como achar emprego às vezes, vão fazer o que? Passar fome? Não é pra isso que existe social welfare? Obviamente a problemática da falta integração dos descendentes de imigrantes na sociedade é complicada, já que muitos governos falharam miseravelmente em permitir que esses filhos e netos se sintam “em casa”. Um filho de turco que nasceu na Alemanha sempre será um turco aos olhos dos alemães, não importa se o cara nunca foi a Turquia ou só fala alemão. Mas isso aí e assunto pra um outro post...

Voltemos ao livro...Legrain é totalmente a favor da abertura de fronteiras, para os imigrantes capacitados (os chamados skilled) e os menos capacitados (non-skilled). E or argumento que usa é bem simples: como e que os governos sabem quais áreas da economia estão precisando de gente capacitada? A economia e algo dinâmica que muda constantemente e rapidamente. Se tem governo que não é capaz de saber nem quantos imigrantes existem no país (como é o caso do Reino Unido), como saberão quais setores da economia estão mais necessitados de mão de obra em um determinado momento? Além disso você nunca pode estimar 100% o poder empreendedor de uma pessoa quando ela está em um país que lhe proporcione condições de liberar o seu potencial. Se os governos ricos permitissem só a entrada de imigrantes skilled (com a exigência que se tenha no mínimo mestrado em alguns países), gente tipo Bill Gates ou Sir Stelios Iannou (dono da Easyjet, uma mega empresa de aviação britânica) não se qualificariam hoje para viver em seus próprios países, já que não estudaram em universidade e portando não seriam considerados como “skilled”. Bill Gates como non-skilled ? Parece piada, ou?

A ironia das políticas migratórias nojentas dos países ricos é que quanto mais eles dificultam, mais a galera quer ficar para sempre. Como Legrain diz, imigração não precisaria ser permanente, já que a maioria das pessoas que emigram não o fazem com a intenção de perder suas raízes, mas o fazem simplesmente por motivos econômicos. Se os mexicanos nos Estados Unidos, os paquistaneses na Inglaterra ou os turcos na Alemanha soubessem que poderiam voltar aos países ricos quando quisessem, eles com certeza não viriam de mala e cuia com suas famílias. Eles prefeririam continuar morando no México, Paquistão ou Turquia e vir trabalhar nos países ricos por um período limitado, ganhando sua graninha, e contribuindo para os dois lados.

Os países ricos têm que acordar...O futuro é chines, indiano, brasileiro, tailandês, vietnamita, filipino...É daí que sairá a maioria dos graduados do futuro. É dai que sairá a maioria da mão de obra que os países ricos tanto precisam. Nenhum país vai conseguir manter o ritmo de inovação e tecnologia necessários para competir em um mundo globalizado, somente com uma mão de obra uniforme, que não fala línguas e pensa do mesmo jeito.

E acho que essa discussão acontecerá mais rápido do que se pensa no Brasil também. À medida que crescemos e nos fortalecemos economicamente, cidadãos de outros países latino-americanos e africanos começarão a tentar sua vida em terras canarinhas. O Brasil pode passar rapidamente da condição de país de emigração a um país de imigração, e sinceramente espero que a gente esteja preparado com políticas eficientes para não cair nos mesmos erros e argumentos xenófobos dos países do primeiro mundo. Quem sabe o próximo livro de Legrain não será sobre a gente? :-)

Thursday, 9 September 2010

Sou cidadã do mundo...Com muito orgulho e com muito amor!!!

Acabei de voltar de uma viagem curta mas maravilhosa a Nova Iorque. Esta foi a minha primeira visita à Big Apple, e como minha estada coincidiu com as comemorações do fim de semana brasileiro na cidade, não posso deixar de registrar minhas impressões e pensamentos em um post.


O número de brasileiros na cidade de NY e incrível. Moro em Londres e sempre achei que aqui era um “mini-Brasil” com cerca de 150 mil brasileiros espalhados pelos 32 boroughs da cidade (esses números são de 2007). Mas isso não chega nem aos pés da concentração brazuca que vi em NY. Estima-se que mais de 300.000 brasileiros vivem na região metropolitana da cidade, e como acredito que esses números incluam só os brasileiros legalizados, o número verdadeiro deve ser muito maior. Tem até uma rua chamada Little Brazil em Manhattan, e foi lá que se concentrou o Brazilian Day, um festival de celebração à cultura brasileira, incluindo shows de artistas famosos, muita comida, guaraná e dança.


Um dos momentos mais marcantes para mim foi ter visto quase 15.000 pessoas assistindo ao show de Ivete Sangalo no Madison Square Garden. Não sou fã dela, não gosto de axé music e fui realmente para acompanhar uma amiga que gosta da sua música e carinhosamente tinha reservado um ingresso para mim. Mas não tenho vergonha nenhuma de dizer que o show foi contagiante e que a energia no estádio era algo quase palpável. Mas durante o show, vendo tantos brasileiros matando saudades de sua cultura no exterior, um grande sentimento de culpa tomou conta de mim. Sim, porque me senti uma “antipatriota” por não sentir falta da minha cultura como muitos outros brasileiros sentem. Depois de quase 15 anos morando em diversos países não sinto falta de feijão, MPB ou até mesmo guaraná...Fico feliz quando encontro essas coisas, mas realmente nunca busquei cultura brasileira nos lugares onde morei. Sera que isso é errado, eu pensava durante o show? Por que todo mundo grita e canta “Eu sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor” e eu não o faço? Será que sou uma traidora da pátria e não tenho orgulho do meu país?


Saí do Brasil pela primeira vez em 1996 e depois em 1998. Apesar de ser considerada como uma economic migrant aqui na Europa, minhas intenções migratórias eram bem mais simples no começo. Queria viajar, aprender línguas, conhecer países e pessoas e ter aventuras. Acabei estudando, trabalhando e casando...E acabei ficando...Obviamente depois de tanto tempo, realmente ficou mais complicado voltar. Mas depois de meditar bastante sobre o assunto, concluí que não, não sou uma traidora da pátria e amo muito o Brasil. Não pertenço a classe dos brazucas que só descem o pau no país e acham que tudo do exterior é melhor. Eu, por exemplo, acho que o brasileiro trabalha mais que o europeu (por salários infinitamente menores), é mais criativo, politizado e menos xenófobo (obviamente o verdadeiro teste será quando o número de imigrantes latino-americanos e africanos no país aumentar devido ao nosso desenvolvimento econômico...aí quero ver se a galera que ama estrangeiro europeu e americano vai gostar destes imigrantes “moreninhos” também...mas ate lá, concedo o benefício da dúvida).

O que eu não sou é patriota cega. Daquelas que acham que a só a nossa natureza é bonita, que não existem praias iguais as nossas (as ilhas Maldivas que o digam), música igual a nossa, que as nossas mulheres são as mais bonitas (engraçado, ninguém fala dos homens...ah é, esqueci...parece que é só mulher que é objeto) e que a nossa comida é a melhor do mundo. O que eu detesto é aquele patriotismo que romantiza e vangloria o jeitinho brasileiro como uma qualidade, ou o classismo que compara o Brasil a um paraíso porque lá pode-se ter empregada e motorista. Ou pior ainda, como escuto milhões de vezes por essas bandas de cá, um patriotismo que exalta o país como um lugar sem racismo...Não, desse Brasil não sinto falta e jamais sentirei...

Li um livro excelente do economista e escritor Philippe Legrain, onde ele debate a questão da imigração e da dificuldade dos países do primeiro mundo em verem seus benefícios. Um dos capítulos mais marcantes é o de quando Legrain toca na questão da diversidade e multiculturalismo e comenta que vivemos em um mundo globalizado, quase sem fronteiras, e com isso caem também as barreiras que definem o indivíduo como de “um lugar só”. Uma pessoa tem que ser definida por mais do que simplesmente o país onde ela nasceu. A religião, as línguas, as experiências pessoais, tudo faz parte do caldeirão que nos define. E é assim que me sinto. Depois de tanto tempo no exterior, a minha meta é manter o melhor da minha cultura original e absorver e assimilar o melhor de cada cultura que vivencio, seja através dos amigos que faço, ou dos países onde moro ou visito.

Acho que posso sim cantar a musiquinha do orgulho, só que a minha versão seria um pouquinho diferente: “eu, sou brasileira de coração, alemã na mente, austríaca no amor a natureza, inglesa no humor, americana no otimismo, africana na pele e norueguesa na consciência social...Com muito orgulho, e com muito amor”.

Wednesday, 25 August 2010

O comeҫo de tudo...

O texto abaixo é um post que escrevi para participar do concurso de blogueiras organizado pelo blog de Lola Aronovich, "Escreva Lola Escreva". Tema: As origens do meu feminismo.

Meu feminismo possui duas origens distintas. A inconsciente e a consciente. Ambas extremamente importantes na formaҫão do meu caráter e personalidade, e ambas marcadas por formas distintas de experiência pessoal e ativismo.

O meu feminismo inconsciente data de minha adolescência, nos fim dos anos 80, início dos 90. Criada como filha caҫula, com um irmão mais velho (e portanto merecedor dos mimos de um primogênito macho), foi nessa época que as primeiras “fichas” comeҫaram a cair me mostrando que ser do sexo feminino tinha suas desvantagens. Afinal de contas, a minha mesada era um pouco menor, eu só pude tirar carteira de motorista depois de meu irmão, a funҫão de ajudar minha mãe com os afazeres domésticos cabia só a mim, (e não ao meu irmão, que podia deixar seu prato na pia sem lavar) e obviamente eu deveria me sentir envergonhada por odiar serviҫo de casa e não saber lavar ou cozinhar direito. Ironicamente, ao mesmo tempo que essas coisas me eram impostas, havia um encorajamento enorme por parte de meus pais (principalmente por parte de minha mãe) para que eu me tornasse alguém na vida. O meu direito de ir para universidade nunca foi questionado, ao contrário de muitas amigas cujos pais só as permitiram estudar em faculdades próximas. O meu desejo de estudar Engenharia Civil (uma profissão vista como extremamente masculina) nunca foi desafiado e sair de casa para morar em uma cidade a 500km de distância não representou para meus pais uma ameaça à minha "inocência e virgindade".

Hoje acredito que a forҫa motor por trás do meu feminismo inconsciente foi minha mãe. Jamais me esquecerei dos muitos momentos onde seu olhar triste e vago expunham seu descontentamento em viver uma vida enjaulada como esposa e mãe. Era seu encorajamento para me tornar alguém na vida que passava uma mensagem subliminar de que eu poderia conseguir tudo que queria, “apesar” de ser mulher. Eram seus momentos de dúvida, medo e recaída - onde me aconselhava a fazer Magistério ao invés de Engenharia - que inconscientemente me impulsionavam a dedicar-me e estudar mais. E era durante suas crises de meia idade que eu jurava para mim mesma que não queria uma vida igual a dela, como dona de casa, mãe, e dependente financeiramente (e emocionalmente) do meu pai. Queria sair e conquistar o que era meu, ser uma mulher independente e com personalidade própria, pronta para provar a todos que ser do sexo feminino não era obstáculo. Ser uma das 15 mulheres em uma turma de 70 futuros Engenheiros Civis foi motivo de orgulho para mim, fazer parte do “clube da Luluzinha da Engenharia Civil” foi algo especial (afinal de contas, 15 era melhor que 1 da Engenharia Mecânica ou 2 da Engenharia Elétrica). Fazer parte de uma seleta elite já era ativismo suficiente para mim...

Em 98 mudei-me para a Europa, e aí ocorre a transiҫão do meu feminismo inconsciente para o feminismo consciente, onde comecei a pensar no assunto de uma forma mais elaborada e constante. Mas essa transiҫão ocorreu não porque me convenci de que a Europa fosse superior ao Brasil em matéria de feminismo, mas exatamente pelo motivo oposto, isto é, por vivenciar dia-a-dia desafios bem semelhantes aos que encontrara no Brasil, e por me espantar constantemente com o fato de que o velho mundo podia ser mesmo bem velho quando se trata de mulheres. Durante minha pós graduaҫão em Engenharia na Áustria, percebi que a situação na Universidade era ainda pior que no Brasil, e em várias aulas eu era a única mulher do grupo. Ao mudar-me para a Alemanha para trabalhar em uma multinacional americana, umas das perguntas que me fizeram na primeira semana foi se gostaria de me aliar a Diversity Network, um grupo de mulheres executivas que se encontravam regularmente para discutir problemas de preconceito e glass ceiling (teto de vidro, metáfora em inglês usada para descrever a falta de acesso de mulheres a posições altas dentro de uma corporação). “Como assim?”, eu pensava. “As mulheres na Alemanha são emancipadas...Aqui elas tem cabelo curto, aqui elas podem sair sem depilar as pernas, ir à praia sem depilar a virilha. Ser mulher aqui não é um problema”. Obviamente, apesar de todas as conquistas feministas das últimas decadas, descobri que o primeiro mundo também tem suas mazelas. A maioria das mulheres na empresa estava no mesmo cargo há muito tempo, e quando acontecia uma rara promoção, muitos diziam que não era por causa de seus proprios méritos, mas sim por causa dos programas de Diversity (explicação que na mente dos machos alemães era mais politicamente correta do que o antigo “ela dormiu com o chefe”). Uma mulher que saia para uma licenҫa maternidade longa estava “usando e abusando o sistema”, e algumas colegas americanas, com quem eu eventualmente tinha a chance de conversar, nem licenҫa maternidade direito tinham em seu país. Tudo foi um grande choque para mim, e instantaneamente comecei a fazer parte do grupo para discutir e aprender mais sobre um assunto, que pela primeira vez na minha vida, não só me interessava, mas também me afetava diretamente.

O choque maior, na verdade, aconteceu quando fui transferida para a Inglaterra em 2005. Descobri que “cool Britannia” não era tão cool assim, e que a situaҫão das mulheres no ambiente de trabalho era longe de ser ideal. Constantemente haviam reportagens sobre casos de assédio sexual nos jornais, e a “City”, como Londres é chamada, com seus bancos e instituiҫões financeiras poderosas, quase não tinha executivas em altos postos. Mais chocante ainda era a insistência das corporaҫões em negar que existia discriminaҫão sexual no ambiente de trabalho, sem que ninguém pudesse explicar direito por que mulheres estavam sempre ganhando menos ou não ocupavam cargos de grande importância. Até mesmo dentro da “Diversity Network” de minha empresa, que eu liderei entre 2006-2008, existia uma facҫão que não conseguia entender “por que a gente reclamava tanto”...

Fora do ambiente de trabalho minhas impressões não eram melhores também. Observava uma sexualização enorme de jovens e adolescentes e notava que o sonho de muitas inglesas é se tornar uma “WAG” (versão inglesa do pejorativo Maria-Chuteira), ou uma “glamour model” (à la Pamela Anderson), ambas tendo seus corpos diariamente expostos nas páginas dos tablóides, confirmando-se assim a falsa impressão de que beleza, e não talento e esforço, é o que lhes garante um lugar ao sol. Se a beleza não é suficiente, a gravidez na adolescência e consequentemente o casamento são outras alternativas vistas como viáveis para se adquirir “independência” financeira. Mesmo entre as classes mais altas, não ter familia e filhos é algo que ainda é visto mais como um problema (obviamente ginecológico, porque é só mulher que pode ser infértil, não é?) e não como uma escolha pessoal. Até loteria de fertilização in vitro existe por aqui! Quero deixar bem claro que não tenho nada contra casamento ou família. Eu mesma sou casada há mais de 4 anos e sou muito feliz, mas o fiz por escolha pessoal e não por falta de perspectiva de vida.

Hoje, aos 36 anos de idade acredito estar bem mais ativa em meu feminismo. Ativa mas também consciente de que a batalha ainda não está totalmente vencida, e que se não nos cuidarmos, uma onda de “doll feminism”(esse termo sendo por mim inventado, sem saber se realmente existe) - onde mulheres acreditam que beleza e sexualização substitem talento e dedicação para se atingir objetivos - poderá influenciar negativamente muitas de nossas importantes conquistas. Não podemos deixar que isso aconteça, e por mais tortas, conturbadas e heterogêneas que sejam as origens de nosso feminismo, acredito elas terem raízes fortes o suficiente para nos garantirem um final feliz e glorioso nessa luta.