Começo aqui uma “projeto” que tentarei executar com bastante disciplina. Todo mês revisarei um livro interessante que li e compartilharei com vocês minhas opiniões sobre ele. Antes de mais nada quero dizer que não tenho formação em Letras ou Literatura, e minha "autoridade" de criticar livros é totalmente não oficial. Como digo em meu perfil, este blog é simplesmente um "grito", onde discuto sobre coisas que considero legais e importantes. E livros certamente fazem parte da lista...
Essa semana comentarei sobre um livro maravilhoso que li recentemente, entitulado:
Immigrants, your country needs them (tradução: Imigrantes, o seu país precisa deles), escrito por
Philippe Legrain. Mencionei
Legrain no me post anterior sobre patriotismo, mas hoje quero dedicar mais do que umas meras linhas a ele, um economista, jornalista e escritor freelance que passei a admirar muito nos últimos meses. Para quem quiser saber mais sobre ele e seus livros, indico o seu blog (mencionado aí embaixo na minha lista de favoritos). Vale a pena conferir (principalmente os vídeos e entrevistas).
A temática de imigração é importantíssima para mim, não somente pelo fato de eu ser uma imigrante faz quase 15 anos, mas principalmente porque o assunto é sempre permeado de controvérsia, racismo, politicagem e injustiça. E isso é extremamente irritante na minha opinião. Ontem mesmo estava no aeroporto de
Heathrow esperando numa fila colossal para passar pela imigração (nem sendo cidadã permanente aqui e pagando 40% de imposto eles facilitam a vida da gente), quando observei uma placa do
UK Border Agency (a Policia Federal daqui) bradando em altas letras:
UK Border Agency - protecting Britain's border and controlling Immigration (tradução: Controle de fronteiras do Reino Unido – protegendo as fronteiras e controlando a imigração). Esta última parte da frase (
controlling immigration) havia sido claramente adicionada depois, pois estava em letras diferentes...Talvez por causa das eleições que aconteceram aqui faz uns meses, eu pensei...Toda vez que a população se sente ameaçada no meio de uma crise econômica, os políticos a tranquilizam descendo o pau nos imigrantes. A fila onde esperava estava hiperlotada, cheia de cidadãos não europeus, a maioria africanos, cujos vôos chegaram por volta do mesmo horário. Obviamente, imigrante tem que ser tratado como lixo, então não importa que os bebês das mães africanas estivessem chorando de fome e os idosos morrendo de cansaço depois de horas e horas de vôo. Haviam 3 oficiais checando os passaportes de quase 500 pessoas, e depois de quase 2 horas na fila (juro!!!), eu sai fuzilando de raiva e pensando: pois é, na hora de invadir e colonizar o país deles tudo bem, mas na hora que eles vem no de vocês, aí precisa avacalhar...
Anyway, revoltas à parte, vamos ao livro.
Legrain manda ver com uma frase que adoro: O argumento para imigração é econômico e não político!!!
Pow, Soc, Tum, Pah!!! Toma na cara, seus xenófobos. Imigração faz sentido economicamente sim e ele prova isso. As maiores economias dos últimos tempo progrediram imensamente por causa de imigração. Veja os Estados Unidos por exemplo, com o
Silicon Valley na Califórnia sendo um centro de inovação e geração de empregos. Os indianos, taiwaneses, etc são vitais para o sucesso do
Valley, ja que estabelecem ligação com seus países de origem (com as vantagens de saberem a língua, os costumes e as práticas de negócios regionais) aumentando assim o comércio, criação de novas empresas e consequentemente a geração de empregos
pros dois lados. Ate países mega xenófobos como Austrália não tem como negar os efeitos positivos da imigração em seu crescimento econômico. Imigração gera empregos e ponto final. Afinal de contas, cada imigrante que executa um trabalho que os nativos não querem fazer está possibilitando que esse mesmo nativo entre para o mercado de trabalho mais especializado, gerando assim riquezas para o seu país.
Democracias sociais como a Suécia e o Canadá estão aí para provar que imigrantes não oneram o sistema social como muitos gostam de dizer. Afinal de contas, nem se os imigrantes estivessem a fim de abusar o sistema (o que piamente acredito que não estão), as leis de imigração não o permitem. Então essa coisa de que imigrante só quer viver de benefícios é pura balela, já que os legalizados não têm direito a um monte de coisas que os nativos têm (tipo seguro desemprego, ajuda de moradia, etc) nos primeiros anos de existência no país. E os ilegais então nem podem aparecer no radar para ir a um simples hospital, quanto mais pedir benefícios ao governo. Quanto aos asilados políticos, os argumentos também são carregados de preconceito, mas o que ninguém divulga é que o número de gente pedindo asilo é muito menor do que se acredita, e continua declinando em vários países. O que as pessoas confundem é que os imigrantes que elas juram ser “abusadores do sistemas”, são na verdade segunda, terceira geração nascidos no mesmo país que elas, portanto cidadãos tão legítimos quanto os que os criticam. Eles, por causa de sua cor de pele “diferente” se sobressaem, mas o que todo mundo esquece é que nativos brancos também pedem benefícios. Se as economias estão estagnadas, e as pessoas não tem como achar emprego às vezes, vão fazer o que? Passar fome? Não é pra isso que existe
social welfare? Obviamente a problemática da falta integração dos descendentes de imigrantes na sociedade é complicada, já que muitos governos falharam miseravelmente em permitir que esses filhos e netos se sintam “em casa”. Um filho de turco que nasceu na Alemanha sempre será um turco aos olhos dos alemães, não importa se o cara nunca foi a Turquia ou só fala alemão. Mas isso aí e assunto pra um outro post...
Voltemos ao livro...
Legrain é totalmente a favor da abertura de fronteiras, para os imigrantes capacitados (os chamados
skilled) e os menos capacitados (
non-skilled). E or argumento que usa é bem simples: como e que os governos sabem quais áreas da economia estão precisando de gente capacitada? A economia e algo dinâmica que muda constantemente e rapidamente. Se tem governo que não é capaz de saber nem quantos imigrantes existem no país (como é o caso do Reino Unido), como saberão quais setores da economia estão mais necessitados de mão de obra em um determinado momento? Além disso você nunca pode estimar 100% o poder empreendedor de uma pessoa quando ela está em um país que lhe proporcione condições de liberar o seu potencial. Se os governos ricos permitissem só a entrada de imigrantes skilled (com a exigência que se tenha no mínimo mestrado em alguns países), gente tipo
Bill Gates ou
Sir Stelios Iannou (dono da
Easyjet, uma mega empresa de aviação britânica) não se qualificariam hoje para viver em seus próprios países, já que não estudaram em universidade e portando não seriam considerados como “
skilled”. Bill Gates como
non-skilled ? Parece piada, ou?
A ironia das políticas migratórias nojentas dos países ricos é que quanto mais eles dificultam, mais a galera quer ficar para sempre. Como
Legrain diz, imigração não precisaria ser permanente, já que a maioria das pessoas que emigram não o fazem com a intenção de perder suas raízes, mas o fazem simplesmente por motivos econômicos. Se os mexicanos nos Estados Unidos, os paquistaneses na Inglaterra ou os turcos na Alemanha soubessem que poderiam voltar aos países ricos quando quisessem, eles com certeza não viriam de mala e cuia com suas famílias. Eles prefeririam continuar morando no México, Paquistão ou Turquia e vir trabalhar nos países ricos por um período limitado, ganhando sua graninha, e contribuindo para os dois lados.
Os países ricos têm que acordar...O futuro é chines, indiano, brasileiro, tailandês, vietnamita, filipino...É daí que sairá a maioria dos graduados do futuro. É dai que sairá a maioria da mão de obra que os países ricos tanto precisam. Nenhum país vai conseguir manter o ritmo de inovação e tecnologia necessários para competir em um mundo globalizado, somente com uma mão de obra uniforme, que não fala línguas e pensa do mesmo jeito.
E acho que essa discussão acontecerá mais rápido do que se pensa no Brasil também. À medida que crescemos e nos fortalecemos economicamente, cidadãos de outros países latino-americanos e africanos começarão a tentar sua vida em terras canarinhas. O Brasil pode passar rapidamente da condição de país de emigração a um país de imigração, e sinceramente espero que a gente esteja preparado com políticas eficientes para não cair nos mesmos erros e argumentos xenófobos dos países do primeiro mundo. Quem sabe o próximo livro de
Legrain não será sobre a gente? :-)